quarta-feira, 22 de julho de 2015

Férias Julho 2015 Parte II - Flip

Férias- Parte II
Em Paraty

 
Seguimos para Paraty sem saber muito o que nos esperava. A Flip sempre me pareceu um evento muito maneiro, mas não tive nenhum tempo e nem vontade de pesquisar como realmente funcionava. Minha atração pelo evento que, aliás, motivou essa viagem, era puramente visual. Todas as reportagens me traziam a imagem de uma biblioteca a céu aberto com muitas pessoas interessadas em ler.

Os 563km que separam Jaú e Paraty foram muito tranquilos. A Serra do Mar entre Taubaté e Ubatuba encanta, especialmente a nós brasilienses acostumados que somos com as retas e planos. A estrada é realmente linda!

Passando por Ubatuba é possível ver o mar. Como diz o Nemo: o mar, imenso e azul. Como sou uma boa menina, os golfinhos apareceram pra nos saudar! Lá de cima os vimos pulando. Não dava pra ser diferente, gritei! Ainda bem que todos estavam acordados e depois do meu escândalo puderam ver os bichos também. Fantástico!

Logo na entrada de Paraty uma marina com lanchas e iates muito bonitos, já dava pra ver o mar. Um pedaço do mar com cara de rio. Nada demais para quem conhece as praias do Nordeste. Seguimos para a Pousada Magnus. Pousada simples, mas com atendimento e localização excelentes. Aqui abro um parêntese, a localização da pousada possibilitou que ficássemos cinco dias sem carro, o que aliás recomendo muito.

Em Brasília não se caminha. Coisas simples e rotineiras dependem das rodas. Padaria, almoço no trabalho, banca de revista, missa...  mesmo quem não precisa, vai de carro. Vai porque foi condicionado a isso: ir de carro. Não há o hábito da caminhada. Aqui somos reféns das rodas. Talvez pelo medo da violência urbana que a grande mídia divulga o tempo inteiro ou quiçá pelo “status” de desfilar com um carrão pela cidade. Transporte público por aqui? Um fiasco! Nem merece fazer parte da pauta, destoaria da alegria do texto.

O fato é que sempre que vejo um filme onde as pessoas vão aos restaurantes, trabalho, cinema, padaria a pé sinto grande inveja. Sempre que viajo e posso, caminho, sigo a pé e lembro de Luiz Gonzaga cantando... ”artomover lá nem se sabe se é home ou se é muié”...

Voltemos à Paraty.

Pois bem, além da ótima localização da pousada, as ruas da parte antiga de Paraty são todas de pedra e em forma de canal, andar é o único jeito. Não transitam carros e até a pé requer atenção. Andar mexendo no celular em Paraty devia ser esporte olímpico!

Chegamos do meio pro final da tarde e fomos procurar onde comer. A cidade estava relativamente vazia, mas a aura da Flip já pairava por ali. A arte estava na rua. Tinham índios, músicos, poetas, escritores, atores todos fazendo sua arte ali mesmo, nas esquinas, praças e rua. Pessoas livres para serem aquilo que acreditam que devem e querem ser, sem preocupações profundas ou análises críticas que são verdadeiras pedras de tropeço na nossa vida. Gente de todo tipo. Tão loucos quanto sãos.

 Almoçamos no Café Paraty, atendimento mais ou menos, comida regular, pouca, muito demorada e cara. Lógico, não voltamos mais, almoçamos e jantamos quase todos os dias no Galeria do Engenho, bom atendimento, comida digna, preço justo.  Após o almoço que virou lanche, voltamos pra pousadas e saímos de novo mais tarde para aproveitar a Flip.

 A Flip tem eventos acontecendo por toda a cidade. A pousada nos entregou um livreto com toda a programação e o mapa da cidade destacando os locais de evento. Debates, shows, peças teatrais e recitais de poesia por toda a cidade. Há uma mesa principal montada ao lado do rio Perequê-açu e do mar. Chamada Tenda dos Autores, lá acontecem os principais debates e é o único lugar onde o ingresso é pago. Do lado de fora dessa tenda, há um telão para transmissão ao vivo com muita qualidade de som e imagem, tem também fones disponíveis para tradução simultânea. Próximo a essa tenda há um café e a livraria oficial do evento, a Travessa.

Na praça da Matriz é montada a Tenda da Flipinha, onde eventos voltados para a criança acontecem e onde ficam as lindas árvores de livros. Os eventos não se limitam a esses lugares, nas livrarias, capelas, casas e restaurantes acontecem eventos todo o tempo. Há também espaços montados pela Folha de São Paulo, pelo Sesc e pela própria organização da Flip.  

É fascinante andar pela rua e ver as pessoas falando sobre cultura, ouvindo e falando poesias, escritores vendendo seus próprios livros numa coragem assustadora. A todos que pude parabenizei e me arrependo de não ter comprado todos, só pela disposição do cara em sair do óbvio e ir à luta.

Óbvio, que por estarmos com Samuel e Maria Elisa participamos dos eventos bem de leve, revezando entre eu e Elias e indo muito mais aos infantis também. Já o Bruno que nunca havia acordado cedo espontaneamente em viagens, participou intensamente de tudo que o interessava. Tinha dia que perdia até o café da manhã da pousada. Mas realmente os debates valiam à pena. Muito leves e acessíveis, ao mesmo tempo profundos e atuais.

Na Tenda da Flipinha vimos vários espetáculos muito interessantes, como a peça Felinda da Carroça de Mamulengos, um grupo com a formação basicamente familiar e fascinante. No domingo, participamos de uma ciranda na praça com eles também. Na mesma tenda vimos rodas de capoeira, contação de histórias com Tino Freitas e também de uma escola local contando uma história indígena.

Na Espaço Sesc vimos uma exposição de fotos e todos os dias Maria queria ir ver a contação de histórias folclóricas. Momento pobrice: lá tinha um café bem bacana com tudo livre.

Um evento em específico merece destaque: um recital de poesia com a Elisa Lucinda e o poeta inglês Lemn Sissay na Capelinha. Elias ficou com Samuel, entramos eu, BH e Maria. Eles recitaram separadamente e por fim dividiram uma poesia. Foi incrível! O lugar lindo, pessoas concentradas no evento e eu não entendendo nem metade do que ele falava. Meu Deus! Meu inglês enferrujou! Até que ele diz que mesmo quem fala inglês como sua primeira língua não entende tudo que ele fala! Ufa!!! Todos riram. Por certo, ele não falava só de sua dicção, mas também de sua mensagem. A Elisa, ah, Elisa! Genial com sua brasilidade, sua verdade, sua firmeza, seu humor! Até Maria Elisa se emocionou. Foi perfeito. Saímos extasiados.

 No sábado, a cidade já bem cheia, foi mais complicado porque choveu e a temperatura caiu um pouco. Andar com as crianças ficou complexo, voltei pra pousada e Elias e Bruno ficaram pra mesa sobre reportagens policiais no México e a que seguiria com Arnaldo Antunes e Karina Brhum.

Lanchei com as crianças numa tapiocaria ao lado da pousada, o dono sempre mexia com as crianças quando passávamos. Os meninos quiseram suco de manga, o cara pegou a manga da fruteira, lavou e fez o suco! Que delícia!

Depois do lanche, fomos pro quarto que num passe de mágica virou um mar revolto e o beliche um navio pirata com rede e tudo! Aviões, espadas, chapéus e navios foram construídos com uma revista repetida que recolhi pela cidade para trazer pro papai. O mais legal que absolutamente sem querer, o chapéu da Maria teve como destaque o título: Revolução Francesa. Foi muito divertido!  

Domingo dia de despedida, a cidade já esvaziada, Bruno caiu da cama  mais uma vez, Elias foi arrumar o carro e eu fui pra praça com as crianças. A cada rua uma peça, uma poesia e nós ali absortos com tantos encantos. Chegando na praça, como diria papai, taquei o rabo no chão tão tacado que rasguei a calça jeans na altura dos dois joelhos! Doeu! Maria logo pediu pra fazer a reza que sempre quero fazer quando ela cai, tradição familiar dos Freitas ensinada de geração pra geração:


"Carne quebrada, Osso rangido, Raposa velha do cú frangido! "

Passado o susto fomos pra roda! Que maravilha a cultura popular brasileira! Com joelhos doendo, fomos dar a última volta na cidade e entramos na Livraria das Marés, não olhei preços, mas a livraria vale a visita. Nos fundos tem um café adorável! Eu gostaria de uma assim por aqui...

E, à essa altura, não posso me omitir, um evento de elite. Um evento onde brancos ricos e estudados transitam pra todo lado arrotando seu português bem divido. Poucos são os negros do lado de fora dos balcões, poucos estudantes, excetos algumas excursões de escolas locais, poucos ambientes com a palavra franqueada democraticamente.  Um ponto a se melhorar. E aqui um salve às cotas raciais!

Mas chegou a hora de seguir viagem, a Flip acabara e já não erámos os mesmos. Uma viagem como essa muda toda sua forma de pensar a diversão, as férias. As malas cheias de livros de escritores que antes nunca me interessei, cheia de inspiração, cheia de exemplos dos bravos artistas de rua e por tudo aprendido e vivido por aquelas ruas de pedra. A questão é que pra julho do ano pensava em outra viagem, outro sonho, mas de fato a vontade de voltar pra Paraty é impressionante!

Seguimos pra Ubatuba, certos de que "é Deus que nos faz entender toda poesia!" mas isso é assunto pro próximo post!

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